Crescimento urbano sem infra-estrutura adequada pode comprometer os recursos hídricos

A cidade é uma estrutura espacial, onde todos os elementos estão em constante interação. Como conseqüência, é totalmente desaconselhável o seu estudo por partes, independentemente da análise de qualquer problema no meio urbano. Com o intenso crescimento das cidades, avolumaram-se os problemas de infra-estrutura, como o transporte, habitação, saneamento, coleta e tratamento de esgoto, lixo não coletado, enchentes, doenças, danos materiais, diminuição do processo de infiltração e de armazenamento da água. Todos provocados pela supressão da vegetação e cobertura da superfície do solo por ocupações irregulares.
O crescimento urbano sem uma infra-estrutura adequada tem comprometido a renovação e a recuperação dos recursos hídricos. A expansão desordenada do espaço urbano, aumentando a impermeabilização do solo, o desmatamento de suas nascentes e a ocupação de áreas de várzeas, impede a renovação desses recursos. O lançamento de esgotos nos corpos hídricos, principalmente o doméstico, sem qualquer tratamento e em quantidade superior à capacidade de autodepuração dos rios, tem comprometido a qualidade da água.
Conforme Ratzel, "o homem é o sujeito da natureza, e é influenciado por todas as condições naturais que o envolvem". A Ecologia da Paisagem é uma ciência que trabalha com as suas características: estrutura (relação entre os distintos ecossistemas em relação ao tamanho, forma, número, tipo e configuração); funcionamento (traduzido nos fluxos de energia, matéria e espécies dentro da paisagem); e alterações (modificações observadas na estrutura e fluxos do mosaico ecológico, que podem ser entendidas como níveis hierárquicos de tratamento de paisagem com fins de planejamento ambiental).
A Ecologia da Paisagem analisa a maneira com que essa série de processos interage, e provém a base teórica para o entendimento do impacto do homem no ambiente e para o desenvolvimento das estratégias de manejo sustentáveis. A paisagem é entendida como uma entidade natural, reunindo referências litológicas, geomorfológicas, topográficas, sociais e econômicas.
A fragmentação da paisagem em áreas homogêneas, denominadas “unidades da paisagem”, possibilita seu estudo, através de métodos qualitativos e quantitativos, identificando, por exemplo, a estreita relação entre o uso e cobertura vegetal do solo, a erosão e o carregamento de sedimentos para os corpos d´água.
A paisagem pode ser definida como "mosaicos heterogêneos, formados por unidades interativas, sendo esta heterogeneidade existente para pelo menos um fator, segundo um observador e numa determinada escala de observação"; Ela é descrita por três fatores: o ambiente abiótico (formas de relevo, tipos de solo, dinâmica hidro-geomorfológica, parâmetros climáticos); as perturbações naturais (fogo, tornados, enchentes, erupções vulcânicas, geadas) e antrópicas (fragmentação e alteração de habitats, desmatamento, criação de reservatórios e implantação de estradas, entre outros), sendo que a Ecologia da Paisagem, contribui para o entendimento desses mosaicos antropizados, na escala no qual o homem está modificando o seu ambiente.
Considerando uma bacia hidrográfica como unidade de planejamento ambiental, podemos resgatar nos princípios da ecologia da paisagem os meios para compreender as transformações que ocorrem, tomando como análise a complexidade da atividade humana e a realidade, trazem em sua essência, atributos bióticos, abióticos diversos interdependentes. Esta interdependência pode possuir maior ou menor grau de vulnerabilidade e se expressa na qualidade ambiental dos lugares, condição resultante da perda dos padrões de uso do solo, da água, do ar, da existência ou não de resíduos e da perda do estado de conservação ou do grau de degradação ambiental.
Sendo assim, a grande vantagem na utilização do planejamento por bacias hidrográficas, e, conseqüentemente o grande significado para fins urbanos, está relacionado basicamente às condições de abastecimento de água, pois através do monitoramento e controle dos efeitos ambientais da bacia, possibilita a conservação das condições naturais e da qualidade ambiental.
Por outro lado, é nesta unidade ambiental que a realização de estudos detalhados e progressivos pode permitir a percepção da relação entre o clima, os solos, o organismo vivo e os aspectos sócio-econômicos, sem que haja perda do sentido de conjunto.
Nos estudos das bacias hidrográficas o solo, a vegetação e a água são elementos imprescindíveis, pois o conhecimento das relações existentes entre si e com outros, permite que se percebam como os mesmos podem interferir na dinâmica de uma bacia hidrográfica e, conseqüentemente, contribuir para intensificar ou reduzir o processo de degradação ambiental.
Portanto, os conceitos da Ecologia da Paisagem, aliado às técnicas de Sensoriamento Remoto e Geoprocessamento, nos fornecem respectivamente as informações espaciais básicas, observando o que o ambiente pode oferecer no tocante à auto-regulação, para propormos quais devem ser as tecnologias mais compatíveis a serem utilizadas.
Os padrões espaciais mostram influenciar muitos processos importantes; assim, os efeitos dos padrões nos processos devem ser considerados em tomada de decisões de manejos dos recursos naturais, contribuindo para as atividades de gerenciamento, como planejamento regional e urbano e o desenvolvimento e uso de recursos naturais.
A Ecologia da Paisagem possibilita o entendimento da compatibilização do uso do solo e seus manejos com os padrões ambientais, já que isto possibilitará a atenuação da degradação físico-ambiental com a conseqüente preservação e conservação dos ecossistemas existentes, e melhoria na qualidade ambiental.
Por Antônio Francisco Evangelista de Souza
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